Ela: "- Preciso fazer uma escova progressiva..."
Ele: "- Eu curto ROCK Progressivo!"
Como fungos resmungando na gélida noite,
eu me escondo, sob o cobertor, recluso.
Sintomas do frio, conseqüências do noturno açoite.
Não há em mim, ao menos, coisa alguma verde-musgo.
Escrevo porque sofro.
Torna-se o lápis, então,
Cortante instrumento a rasgar a carne,
a sangrar a alma.
Antes de instrumento de tortura,
é um afiado bisturi,
a extirpar do corpo o incômodo tumor.
Solitário busco, na exteriorizaçao textual,
exorcizar todo sofrimento,
dirigindo-me a um eventual, futuro e desconhecido leitor.
Se não atinjo meu intento,
também não alimento minha dor,
e resta sempre o consolo em saber que
tal atividade me trará o sono e, com ele,
descanso para o corpo e para o espírito.
AS PEDRAS ESTRELADAS
Conseguiu pegar sua mala a tempo na esteira, ainda que tivesse perdido um tempo considerável argumentando com a aeromoça sobre o cardápio oferecido nas viagens aéreas - Lucio não agüentava mais comer goiabinha.
Ciente de que acabara de apenas gastar saliva com a eficiente funcionária da empresa aérea que o conduzira até o Rio de Janeiro, seguiu esbaforido à esteira e, de lá, para o hotel em frente ao Aterro do Flamengo, não sem antes ter discutido com o taxista, que, com sucesso, acabou por tungar-lhe 10 mangos a mais pela ínfima corrida.
Aquela era uma viagem diferente. Finalmente Lucio podia ir ao Rio sem que, para tanto, tivesse que resolver problemas na sucursal carioca da empresa que trabalhava há mais de dez anos. Doze reveillons, para ser mais preciso. Lembra-se com certa ternura do primeiro, em 1994, quando conheceu Judite. Ainda que depois ela tenha se mostrado uma quenga desnaturada, Juju estava linda na areia de Copacabana naquela passagem de ano – toda de branco, com a cara cheia e o coração ardendo de paixão incontida por ele.
Judite era paulista de Avaré e, como ele, também passava seu primeiro reveillon no Rio de Janeiro. Louca para conhecer os cariocas e ter aquele sotaque arrastado lhe triscando os ouvidos, o máximo que conseguiu foi a ansiedade de Lucio em seu cangote. E ela não se queixou, até porque os dois não só saíram do Rio como namorados, como também, 3 meses depois, já estavam morando juntos no apartamento do pai dele no Ipiranga. Pena que a relação chegou em 1998 já em frangalhos, o que certamente originou a cena que teria o desprazer de assistir: Judite, descabelada, em sua cama com Dulcídio, o vizinho do andar de cima. “Bendita hora em que resolvi voltar pra casa mais cedo”, pensou, logo após testemunhar, da varanda, Judite, de mala e cuia, sendo ajudada por sua mãe a entrar no táxi. Também pudera: ele não via a hora de chutar Judite dali. E a pena que sentia por ela – que àquela altura não tinha para onde ir – cessou imediatamente quando a flagrou satisfazendo as vontades proctológicas do viado do Dulcídio. E ainda que tenha concluído, dias depois, que poderia terminar com Judite embasado por um motivo um pouco mais nobre, acabou racionalizando ao ver o táxi sumir de sua visão: “c'est la vie”.
E lá estava ele sorvendo os ares cariocas mais uma vez. Lucio, paulistano da gema, aprendera a gostar do Rio com certa facilidade. Não era lá muito dado, mas sua timidez não foi suficiente para afastar os afagos cariocas e nem os chopinhos no Largo do Machado com os colegas da sucursal. Fez até amigos e, por isso, de vez em quando, deixava de ficar hospedado no hotel para se aninhar n’algum apartamento da idolatrada Copacabana.
Mas daquela vez ele preferiu o bom e velho hotel no Flamengo, que inclusive fora reservado com certa antecedência porque, afinal de contas, era 29 de dezembro e a Cidade Maravilhosa já estava pronta para receber o ano de 2007. E ele adorava o Aterro do Flamengo, “um parque do Ibirapuera com o mar ao fundo”, suspirava, sempre que sentava num daqueles bancos.
Saiu de São Paulo, na verdade, com a idéia exata do que queria fazer: observar, do Aterro, aquele paredão do Pão-de-Açúcar com todo o marzão de meudeus em volta. Já em trajes cariocas, lá estava Lucio curtindo a paisagem sem se preocupar com as planilhas ou com a porra do ar-condicionado quebrado da empresa. Apenas observava o paredão de pedra, com o céu azul ao fundo, bebericando seu líquido predileto - aquele contido no coco verde.
De repente, por que inclinou-se à esquerda, avistou longos cabelos louros percorrendo um corpinho lindo, que caminhava em direção à Marina da Glória. A água de coco, já tornada saliva, ia escorrendo por sua boca até que ele a viu se virar para trás. Mesmo com a distância entre eles, ele pode observar ela o avistando e, em seguida, vindo em sua direção.
Lucio não podia acreditar. Com o coco suando em suas pernas, tentou disfarçar contando – em vão – o número de árvores que percorriam o Morro da Urca. Ao olhar de novo para ela, deparou-se com um “Oi” surreal.
- “O-O-O-Oi”, respondeu.
- “Você é paulista, né?”, ela jogou.
- “S-S-S-Sou. Tá na cara, é? Sabia que não podia ter comprado esta bermuda bege”, tentando disfarçar o incômodo de estar sentado ali com um coco vazio no colo. Conseguiu reparar que o sorriso dela era igual ao do gato da Alice. E ainda embasbacado com aquela beleza, ouviu:
- “Sabe o que é? É que vou semana que vem a São Paulo. E eu queria saber se você poderia me dar algumas dicas sobre teatro”.
Teatro? Fodeu: ele não manjava de teatro algum. Lembrava apenas que a chata da Letícia, depois de ganhar uma aposta, conseguiu arrastá-lo à Praça Roosevelt para que assistissem a um espetáculo d’Os Parlapatões, do qual gostara bastante, ainda que tenha pirado mesmo com o acervo de discos do PPP, boteco amigo que fica ali na praça, quase ao lado do teatro. Mas respondeu:
- “C-C-Claro! É... desculpe: qual o seu nome?”.
- “Ingrid”.
- “Prazer, Lucio. Você não é carioca, é?”.
- “Não, sou do interior de São Paulo, de Catanduva”.
- “Catanduva? Conheço de passagem. Minha vó mora em Rio Preto. Legal aquela região”
- “Ih.. faz tempo que não vou pra lá visitar minhas tias... Moro há mais de 15 anos aqui no Rio. Bom... então, Lucio. Voltando: você pode me indicar? Sabe o que é? Sou atriz, estudante do Tablado, conhece? Precisava de umas boas dicas do teatro de São Paulo. Tô curiosa, especialmente com uns caras que têm um repertório voltado pro circo, Os Parlapatões”.
Pronto. Quem disse que não existem coincidências? Levantando pra se livrar do coco, mandou:
- “Parlapatões? Pô, eles são muito bons, Ingrid!!”, riu, satisfeito. “Vi várias peças dos caras!” E emendou, sem medo de ser feliz: “Por que a gente não faz o seguinte: você me apresenta um boteco bacana ali no Leblon e eu te dou a ficha completa dos caras hoje à noite. Pode ser?”
- “Hoje? Putz, hoje não dá. Tenho uns amigos do Recife que estão aqui no Rio e querem conhecer a Lapa. Vou lá hoje com eles, no Democráticos. Gosta de samba, chorinho?”
- “Lógico!”
- “Pois é. É o que rola lá. Quer ir com a gente?”
- “Hummm... pode ser”
- “Legal, Lucio. Ó: anota meu telefone aí”
- “Beleza! Pode falar”
- “9879-5476”.
- “Anotado”
- “Então tá. A gente se vê mais tarde, hein? Tchau!”
- “Tchau, Ingrid”
E lá se foi o enorme cabelo louro, deliciosamente lambido pelo vento.
Chegou ao hotel sentindo uma pontada na barriga, seguida de outras tantas, desencadeando uma série de eventos que acabaram por impedir que Lucio não só tivesse que dar um adeus à sua noitada na Lapa com Ingrid e os pernambucanos, como também aos chopes e bolinhos de bacalhau no Largo do Machado e aos almoços gordos na Nossa Senhora de Copacabana. Ele teve uma diarréia forte o suficiente para que causasse uma profunda e real vontade de clamar pelo estoque inteiro de goiabinhas da maldita companhia aérea. Como era impossível ter acesso a elas, teve que se contentar com o soro na veia e com os remédios receitados por um médico folgado do Miguel Couto.
No dia seguinte, já se refazendo do lama que gerou o caos instalado em seu quarto de hotel, pensou em ligar para Ingrid para pedir desculpas e, quiçá, caçar um assunto. Mas não teve coragem, e sim uma estranha vergonha. Restou a Lucio, então, passar o dia 30 de dezembro deitado, enchendo a cara de soro, vendo televisão e tendo que trocar de cueca a cada vez que o casal Garotinho aparecia na telinha.
No último dia do ano de 2006, ali estava ele sozinho no quarto, quase curado e já de saco cheio de tomar tanta água de coco. Vislumbrava o céu azul carioca através da janela quando, numa virada na cama, deixou seu celular cair no chão. Esticou-se para pegá-lo – o que motivou outra troca de cueca – e, com ele em suas mãos, lembrou-se de Ingrid. E da oportunidade que perdia. Após achar o número em sua agenda telefônica, respirou fundo e apertou 'send'.
(...)
(continuação)
No quinto toque ela atendeu, esbaforida.
- “Oi, Lucio. Por que você não foi na Lapa com a gente? Foi tão legal”
- “Cof... tive uma... comi algo que não me fez muito bem naquele dia. O médico disse que era melhor que eu não saísse, caso eu quisesse ver os fogos de Copacabana. Decidi acatar a sugestão”
- “Ahahahahhaaha. Tá, então. Melhor assim. Mas você tá melhor?”
- “Sim, pronto pra outra”
- “Que bom, querido. Olha só: vai passar o reveillon onde?”
- “Em Copacabana com uns amigos. E você?”
- “Numa festa no Morro da Urca. Mas depois desço para Ipanema”
- “Ah, legal... quem sabe a gente se encontra, né?”
- “É. Me liga. Pode ser difícil, você sabe. Além da muvuca, ainda estaremos separados pelas pedras do Arpoador”
- “Aahahahhahahah. É verdade”
- “Bom, então deixa eu agitar meu lado aqui, porque tenho uma porção de coisas pra fazer ainda”.
- “Tudo bem. Então um beijo”
- “Outro, querido. Tchau”
- “Tchau”
“Meu Deus do céu”, pensou. “Vou dar um foda-se nos caras e curtir Ipanema com a Ingrid”. Mas a consciência de Lucio não deixava, justamente porque havia se comprometido a passar o reveillon com seus colegas, inclusive porque iriam levar umas minas interessantíssimas pra ele conhecer: “É foda certa ali, mané”, ouvia deles incessantemente.
Depois de bater palmas para o sol no Arpoador, que se pôs especialmente sorridente naquele fim de tarde, voltou para o hotel já curtindo o clima festivo carioca. Arrumando-se, foi avisado para estar às oito e meia no Cervantes.
Mesa cheia de garrafas vazias e sentindo nas costas o ar-condicionado no talo, já estava no grau quando, às dez e meia, decidiram rumar à areia. Lá, olhando pro céu estrelado, virou à direita, em direção ao Arpoador, e imaginou Ingrid toda de branco, descalça, cabelos louros ao vento e, sorrindo como o gato da Alice, fazendo almôndega com os pernambucanos. Ele, por sua vez, estava no maior vuco-vuco, cheio de macho em volta e ainda por cima acompanhados por três brevanas de cabelo tingido e esmalte rosa descascado nas unhas dos pés.
Decidiu mijar na farmácia do outro lado da avenida Atlântica e, na volta, depois de sentir sua quase-bunda ser beliscada por algum travesti – “que fase!” –, conseguiu observar com certo distanciamento a turma que o acompanhava, o que o fez lembrar da diarréia que o acompanhou no dia anterior. Também pudera: os caras só pensavam em ganhar mais dinheiro e em comer o maior número possível de gutchas no quarto do motel em que fariam a porra da dita tradicional suruba de ano-novo.
Teve vontade de olhar de novo à direita. Surpreso, viu as pedras do Arpoador ficarem coloridas. “Um divisor psicodélico”, concluiu, bêbado, 1 segundo antes de pular de susto ao ouvir os primeiros estouros do famoso fogaréu de Copacabana. Mirou o céu e não desgrudou o foco de lá nos 25 minutos seguintes, tempo que durou a linda comemoração. Foi quando ouviu o convite, seguido de um beliscão no lombo:
- “Vamos, gatinho?”
Olhando praquela mina já estragada de farinha e sem poder desviar o olhar daqueles horríveis olhos saltitantes, respondeu:
- “Pra onde, porra?”
- “Nossa, gato, não precisa falar assim comigo”
- “É... não... desculpa, tô bêbado. Mas... eu não vou. Vão vocês. Eu quero meter o pé nessa areia e caminhar um pouco. Quero pular as sete ondas”.
- “Deixa esse viado aí”, gritou um deles, também trincado, já rumando em direção à avenida.
Sozinho naquela multidão, Lucio fechou os olhos, encheu seus pulmões da abençoada maresia carioca, mirou o mar e para lá caminhou, até molhar seus pés. A gélida água fluminense conseguiu fazer com que se virasse, mais uma vez, para aquelas enormes pedras que invadiam o mar. Decidiu finalmente rumar naquela direção e, dando um foda-se aos pernambucanos, se deu conta de que não queria mais que o Arpoador o separasse de Ingrid.
Outro mundaréu de gente pra tudo o que é lado. Gelou a espinha. Tateou seu celular e, mesmo após 34 tentativas, não conseguiu falar com ela, justamente porque, fora ele, mais 2 milhões de almas, somente ali do outro lado das pedras, tentavam falar ao telefone. Já desesperado e caminhando sem direção, decidiu parar, olhar o mar novamente e tentar extirpar o frio na barriga que o corroía sem dó.
De repente, ouviu, pertinho:
- “Oi, paulista”
Virou-se, meio cambaleante, em direção ao maravilhoso perfume que sentiu. Ganhou um abraço apertado. E com os cabelos louros dela tocando seu rosto, contemplou o olhar castanho-esverdeado que mirava calorosamente seus olhos, causando-lhe uma sensação que jamais conseguira vislumbrar, nem em seus mais inspirados devaneios.
Pegou as mãos de Ingrid, apertou-as e, entrelaçadas, colocou-as perto de seu aparvalhado coração.
- “Ingrid”
- “Shhhhh... Me beija, paulista”.
Lucio, pela primeira vez, pode ver de olhos fechados as estrelas mais brilhantes de todo o seu universo, que naquele exato momento deixara de ser particular.
...
Acostumado estava
A ver mazelas, favelas da alma
Que me saltam, vorazes,
Capazes de não lidar
Com meus sentimentos,
Solitários momentos,
Cinzas, vazios,
Permeados por vento.
Mas eis que,
Lisas, macias, surgem
Pequenas e protetoras, suas mãos...
Com a leveza que conduzem meus olhos
A certos portos azulados.
Por que vivos a engajar,
Inspiram e imaginam
O cessar das sombras
Que teimavam em me procurar.
OFF-TOPIC

AQUELE SORRISO
Ri hoje à tarde, gostosamente, de um sorriso entupido de quereres.
Quase nem respiro direito. Ansiedade me carcome a aura, ente que, outrora cheio de saber, agora, súbita, faz-me emitir sons lancinantes e sentir o que mais gosto: o que anseio, o que não domino.
Depois abafo a risada, só pensando na sua, esperando o momento seu, único a me tentar. Seduzo meu chamado apenas para (te) dar aconchego, para que eu possa, um dia, cantar uma canção, pacificando nossas consciências.
Não sei o que penso, o que faço. Só sei que é um prazer rir, acariciar, desejar.
Sua voz.
Você.
ENCONTROS E...
Parte I
Pedro e Amanda esperam o elevador.
A máquina chega. Há hesitação nos movimentos de Pedro, que não sabe se vai ou se dá passagem à moça.
Ela sorri, após a decisão de Pedro de esperar que ela entre primeiro no elevador. Ele, surpreso com o sorriso, retribui, ainda que sem graça por sua indecisão.
Ela aperta o 7, ele o 14. Mas antes que chegasse ao 4º andar, o elevador pára.
Presos no elevador. Pedro e Amanda, assustados, entram juntos em desespero.
- Ei! Socorro! Me tira daqui!! Alguém me ajuda!! Socorro!!!
Gritam muito. Ninguém os escuta. Numa mistura de exaustão, susto e desapontamento, os dois sentam no chão.
Silêncio. Tentam escutar algum barulho de fora, vozes talvez, para voltarem a gritar por socorro. Nada ouvem, de fato.
Olhares de ambos para todos os buracos, fendas, parafusos e luzes apagadas existentes naquela caixa metálica.
Amanda, sem mais, começa a olhar ininterruptamente para Pedro. Ele, sem graça, a cumprimenta.
- Oi... que coisa chata, né? Pior que eu tô atrasado, cheio de coisas pra fazer, com minha mesa lotada de papéis que deixei pra resolver hoje e, a essa altura, com o meu chefe querendo comer minha alma.
- É... chefe é uma merda mesmo, ela diz
Eles riem.
- Você faz o quê da vida?, ela pergunta.
- Sou publicitário. Mídia.
- Ahn, sei.
- E você?
- Sou atriz. Vim aqui neste prédio atrás de um patrocínio. Entregar este projeto aqui (mostra-o) na Caixa Econômica.
- Deixe eu ver.... hummmm.... “As aftas ardem e dóem”? Bacana...
- É... é uma montagem que meu grupo está fazendo...
- Teatro?
- É.
- Qual peça?
- Criação coletiva. Você não conhece.
Silêncio. Pedro folheia o projeto de Amanda, que volta a procurar luzinhas acesas no elevador.
- Vocês são profissionais, hein? Bem bacana o projeto!
- É... foi uma professora nossa de teatro, da faculdade, que deu uns toques e tal... ela fez uma carta de recomendação, inclusive. Dá uma olhada... tá no final e...
- Marieta Desabato?
- Você conhece?
- Sim! Ela é minha tia. A propósito, prazer: Pedro Desabato.
- Amanda Pacili. Puta coincidência!!!!! Adoro sua tia. Uma velhinha muito legal... sempre quis que ela fosse minha avó!
- É, ela é bem legal mesmo. Mas faz tempo que não a vejo.
- Coisa feia. Ela deve querer muito ver seus sobrinhos!
- Sei não... ela, apesar de idosa, é muito ocupada. Nunca está em casa.
Silêncio.
- Você tem filhos, Pedro?
- Sim. Dois. Cairê e Ananauê.
Ela ri. E pergunta:
- Você é hippie?
- Não. Minha mulher foi.
- Foi?
- É. Ela teve que largar o mato pra ganhar dinheiro. Hoje, inclusive, ganha mais que eu engarrafando aqueles borrifadores de mel, própolis, agrião e o escambau.
Ela mexe na bolsa e tira um.
- (rindo) Tipo este aqui?
- É... esse mesmo (resignado, também rindo).
- É gostoso (borrifando).
- Sabe que eu nunca experimentei essa merda?
- Pois devia.
- É que tem tanto vidrinho desse lá em casa que enjoei. Fora o cheiro de cuspe seco que fica. Minha casa fede a cuspe seco.
- Urgh! Larga de ser chato. É gostoso e faz muito bem pra garganta.
- A-hã.. é que você não sabe as larvas que eles põem aí dentro pra dar esse azedinho gostoso que você sente.
- O quê? Larvas?
- (rindo) Tô brincando, Amanda. Calma. Pode borrifar esse nojinho aí. Tô acostumado mesmo...
Continua...
ENCONTROS E...
Parte II
- Ia ligar nada. Se fosse pra ligar você já teria ligado. Você nem pensou nisso.
- Não... eu ia ligar, mas... aí a Lucila ligou e... (ri) Putz... eu nem me preocupei em ligar pra agência. Nossa... o mundo deve estar se acabando lá em cima. Acho que meus neurônios deletaram deliberadamente aquela agência, de tanto trabalho que deixei acumular.
- Você tem um cigarro?
- Não. Não fumo.
- O meu acabou. Puta vontade de fumar.
- (rindo) É uma boa oportunidade pra você parar de fumar. Um aviso.
- Aviso? Putz... podiam ser mais sutis com esse aviso.
- É... podiam. Mas, desculpe-me.... isso é questão de merecimento. Você mereceu estar aqui, presa, sem cigarros e com um velho mala como eu.
- (gargalhando) E você? Não merece toda essa quizumba também?
- Mereço. Ô se mereço. Este é o castigo por eu ter deixado tudo pra hoje na agência. Tô é fodido mesmo.
- Nem tanto. Você tem a mim.
- (gagueja) O quê?
- É. Você não está sozinho aqui. Estou com você, tão fodida quanto. E meu grupo vai me matar por eu não ter entregado o projeto. Hoje era o último dia...
- Putz.. sério? Que pena...
- É... fica pra próxima, então... o imponderável me fodeu. Fazer o quê?
- Chchchchchh... Peraí, Amanda. Você tá ouvindo umas vozes? Uns barulhos?
- Tô! (gritando, junto com Pedro) Ei!!! Tem alguém aí? Estamos presos aqui no elevador!!!! Tirem a gente daqui!!!!
- É. É essa luz de emergência aí. Incandescente. Ela esquenta mesmo.
- Vamos apagar?
- Não dá.
- A gente quebra!
- Ah, Amanda! Melhor não! Ficar no escuro?
- Você tem medo do escuro?
- Lógico que não. É que é desagradável.
- É nada. Quer ver?
- Não...
Ela, em seguida, acende o isqueiro.
- Tá vendo? Não é mais legal assim?
- Seria, Amanda. Se você fosse minha amante. Mas...
- Mas...
- Mas agora vai ficar mais difícil da gente ajudar quem vem nos resgatar aqui.
- Ajudar?
- É. Vai que eles nos peçam pra apertar um ou outro botão escondido. Como vamos achá-los?
- Esquece. Eles vêm é com um pé-de-cabra arrebentando a porta.
- A-hã... E você acha que eles vão depredar o próprio patrimônio só pra salvar dois xaropes como nós?
- Por que não iriam? Somos pessoas, oras bolas. Você é um funcionário daqui.
- E daí? Ninguém – fora o meu chefe – sabe que eu existo. Sou discreto.
- Tímido.
- Discreto, tímido. Tudo a mesma merda quando não te olham na cara.
Amanda ri.
- Você quer um abraço?
- E o pior é que você ainda vem tirando uma com a minha cara.
- (rindo) Tô falando sério.
- Sei... sarcástica você, hein? Papai devia te dar umas palmadas.
- Quem? Meu pai? Não o conheci.
- Sério?
- É. Mas não quero falar sobre isso.
- Tá bom.
- Você quer ou não o abraço?
- Amanda, pára de me sacanear.
Ela o abraça. Ele retribui. Sente o perfume dela, já com o nariz nos cabelos. Ela o acaricia nas costas. Sente o seu suor, com a boca beirando sua orelha.
Barulhos. Abrem a porta do elevador.
Eles se olham, um de frente ao outro. Quase com os lábios se tocando.
Amadeu, o zelador, pergunta, meio que encabulado pela cena que flagrou, se estão bem. Enquanto ela sai da posição e pega suas coisas no chão, Pedro e Amadeu conversam.
- Sim. Estou. Obrigado, Amadeu.
- De nada. Você trabalha aqui?
- Sim. Na Zóing.
- Ah... nunca te vi aqui.
- É... mas eu te vejo sempre.
- (saindo) Tchau, Pedro.
- Tchau, Amanda.
Beijos no rosto de despedida. Um abraço apertado.
MAIS UMA AUTOFAGIA

O cérebro. Será ele o órgão mais importante do homem? Assim, de sopetão, poderia dizer que não, já que, por mais que seja responsável pela nossa muitas vezes duvidosa inteligência, o cérebro é apenas um elemento dos muitos que compõem o sistema nervoso central. Além disso, há o coração e o cu para com ele competir. O sangue, afinal, tem que ser bombeado e a merda, por sua vez, deve ser cuidadosamente expelida.
Dizem que todas as minhocas gordas socadas dentro do nosso crânio nascem também pequeninas e que, à medida em que crescemos e nos desenvolvemos, elas, lógico, também crescem. Alguém me contou, certa feita, que elas, quando alojadas num crânio de 40 anos, têm uma extensão equivalente à altura do Cristo Redentor. Pena que não posso afirmar que isso seja verdade, mesmo porque nunca fui ao Cristo Redentor. Pois é. Como podem perceber, sou um cara cético por excelência. E o responsável por esse ceticismo imbecil é, óbvio, o cérebro, ou melhor, seus hemisférios cerebrais, que fizeram com que eu tivesse esse raciocínio tacanho.
Ok. Talvez eu esteja sendo injusto. E o motivo posso dizer tranqüilamente, sem precisar espremer muito meu cerebelo: estou há uma semana literalmente queimando minha massa encefálica com um único fim: criar um texto sobre o cérebro. É difícil! Entender a mente humana requer numerosos métodos e teorias, analisadas através do estudo da Psicologia, da Filosofia, da Inteligência Artificial, da Neurociência e também da Lingüística, tudo isso aliado ao fato de que, nessa abordagem, o cérebro deve falar de si mesmo. Pensem bem: descontada a metalinguagem da coisa, talvez seja mais fácil um cérebro aprender a controlar os músculos dos esfíncteres a analisar-se a si mesmo. E tão-somente pelo fato de não ter criado alguma idéia genial para abordá-lo, esse meu complexo e enorme órgão cinza-róseo percorreu inúmeros caminhos para descrevê-lo, caminhos esses muitas vezes tortuosos, mas que não deixam de ser interessantes. Vai daí que ele, sensato, acabou optando por enumerá-los a vocês para que, mais adiante, nossos estudos sejam ainda mais abrangentes. Ou não.
Pois bem. Voltando ao tema central deste texto, naquele momento em que soube que iria ter que falar de si mesmo, meu cérebro logo teve a idéia de fazer uma abordagem engraçada de seus neurônios, talvez criando, em meio às sinapses, um inverossímil diálogo entre dois deles para, assim, entreter aqueles que agora lêem este texto. Tiradas engraçadas, frases de efeito e até piadas do sumido Ary Toledo certamente não seriam descartadas...
Depois ele pensou em produzir um texto que remetesse àquela famosa e engraçadíssima cena de um filme do Woody Allen, com a participação especial do Burt Reynolds, em que há a retratação do cérebro quando, impulsionado por uma linda mulher, libera a ocitocina e a vasopressina para que seu possuidor chegue, por meio da ativação do sistema de recompensa, ao tão sonhado orgasmo. Idéia abandonada por pura falta de talento – e respeito à obra de Mr. Allen, claro.
Mas um fato soou estranho – e ao mesmo tempo interessante - às minhocas gordas. Guiando o pedaço de carne que escreve este texto em direção a sua casa, meu cérebro, por meio dos olhos, começou a enxergar os inúmeros pedintes que ficam situados na avenida Cruzeiro do Sul, embaixo da linha do metrô. Logo, para espanto do meu cérebro, ele concluiu que cada um daqueles mendigos também possuíam cérebros tão complexos como ele mesmo. E entendeu, mas não compreendeu, o porquê de alguns cérebros estarem alojados em crânios que dirigem carros e freqüentam bons restaurantes, enquanto outros, ao contrário, estão embaixo de uma ponte sem receber sequer uma liberação de dopamina por meio de um simples prato de comida no sofrido núcleo acumbente.
E sua análise, lógico, não parou por aí. Logo vieram as óbvias associações aos seus colegas doentes, que acabam por levar seres humanos a matar e a estuprar por simples prazer. Por mais que fizesse naturalmente o procedimento necessário para manter o delicado equilíbrio de seus neurotransmissores e evitar, assim, os nojentos comportamentos sociais logo acima descritos, meu cérebro soube, por meio da internet, que, ocasionalmente, é o excesso de serotonina e da noradrenalina que leva à agressividade. As minhocas gordas ficaram arrepiadas.
Cansado, confuso e já querendo uma barra de chocolate meio-amargo para que outra boa dose de dopamina o acalme, meu cérebro, enfim, concluiu suas pesquisas ao descobrir a criatura responsável por todos os problemas que o afligiram durante essa dolorosa auto-análise. Chama-se córtex orbitofrontal, figura abominante que agora causa o enorme arrependimento de ter trazido à baila um tema tão difícil de dissecar.
Autofágico esse meu cérebro. E isso, definitivamente, não me soa bem.
SUFLAIR

- Esse sulflair é seu?
- Oi?
- Esse suflair... acho que caiu da sua bolsa.
- Ah! Não é meu não... deve ser de outra pessoa.
- Desculpe... é que eu acho que ele caiu da sua bolsa... tem certeza?
- Tenho! Quer dizer, humm... não me lembro de ter comprado esse chocolate... mas se você viu cair... acho que foi minha mãe quem o colocou na minha bolsa, então...
- É... talvez... tó!
- Ah, sim... ‘brigada, então...
- Se quiser mais, é só falar comigo...
- Ahahahah... tá bom! Tchau!
“Se quiser mais, é só falar comigo”?!?!?
Que imbecil! Poderia ter pegado o telefone dela, pelo menos...
Agora pra encontrar de novo essa mulher no metrô vai ser um sacrifício!
OFF TOPIC
Cada vez que eu lhe vejo
É o desejo do desejo
De seguir seu jeito
Respirar seu toque
Amar sem medo.
Sofrer coisas boas
Surfar nas paredes entrelaçadas
Suado, sem jeito
Caducando bobagens
Viagens, bondades
De um querer sem fim.
FELIZ 2008!!
O BOLSO DIREITO

Sabe aquelas horas em que o bolso é a única alternativa viável para disfarçar seu desconforto? Pois é. Demerval estava assim hoje. Justo hoje, o dia em que reencontrará aquela garota que, há tempos, sonhou conhecer. Sonhou não! Rezou! E com uma espantosa e insólita fé!
Sim, Demerval já pediu a Deus – ou seja lá a entidade superior (ou inferior) que você, leitor, respeite – a dádiva de conhecer uma garota bacana. Talvez isso possa ser considerado patético, claro, mas diante de sua feiúra adolescente (a lógica informa que se ele é feio hoje, nos difíceis anos adolescentes Demerval era o capeta espumando), teve que apelar. Era isso ou nada.
Contextualizando essa anedota, quando de sua cubista adolescência, seus pais, católicos, obrigavam-no a ir à missa todos os domingos. Ele e o irmão Laércio, cordeirinhos, iam. Só que enquanto os pais ficavam lá na frente, os filhos optavam por sentar lá atrás, perto da porta. Óbvio que mais zoavam do que prestavam atenção na mensagem contida na homilia dominical. Às vezes, atrasado com a leitura do livro que a ginasial professora de português enfiava goela abaixo, Demerval chegou a ler mais de dois capítulos de "Cachorrinho Samba" enquanto o padre não se esforçava muito para convencer sua assistência de que pecar poderia não levá-los ao céu. Pensava, inclusive, no porquê de seus pais permitirem que ele levasse um livro estranho à igreja católica. Mas logo compreendia que o que importava para eles, também, era a presença e os papos que levavam entre as cinco quadras que separavam seu caforo daquela enorme Casa do Senhor.
À época, por mais que Demerval zoasse com seu irmão dentro e fora da igreja, com seus primos ou com amigos do colégio, sempre havia aquela clareira em seu organismo, causada justamente pela ausência de uma namorada. E no auge do desespero – quando ele já tomava conta de todos os seus glóbulos –, veio a idéia da tal reza. Pensou: "Pô! Todo mundo reza pedindo várias coisas! Por que eu não posso pedir uma namorada a Deus?". Como a resposta para essa pergunta apresentou-se como um foguete aos seus neurônios, deixou seu irmão falando sozinho, ajoelhou-se e pôs-se a rezar. Após o tradicional "Pai-Nosso", fervorosa e incansavelmente ele rogava: "Pai, por favor, ajude-me a conquistar uma garota!", ou, ainda, "Senhor, por favor, eu preciso de uma namorada. Ajude-me a achar a mulher da minha vida!".
Naquele dia, apesar das gozações do idiota do irmão, Demerval saiu da missa satisfeito e feliz por ter ajoelhado e rezado. E, com o regozijo, estava também ansioso para saber se, primeiro, Deus iria ajudá-lo e, segundo, quem será a corajosa que apareceria em sua parca vida por meio da sempre perspicaz intervenção divina.
Dias, meses e anos se passaram. Hoje, ali e agora, ele constata, observando seu relógio, que Deus, eterno cumpridor de seus afazeres, até teve a manha de colocar em seu caminho algumas namoradas. Mas logo se lembra que o fato curioso dessa estória é que no dia seguinte àquele pedido ele já havia dele se esquecido. Só foi lembrar de seu pleito adolescente minutos atrás, quando percebeu a curiosa reação da atendente Joana ao pedir-lhe um café expresso. “Será que ela percebeu minha ansiedade? Será que ela se ligou que estou há inúmeros minutos circundando este bar, à espera de alguém?”, regurgitou.
Óbvio que exala ansiedade neste momento, até porque foi capaz de ligar uma coisa na outra, o que só lhe resta questionar: o fato de ele lembrar somente naquele momento, enquanto espera Silvia, daquele seu pedido desesperado, significa que ela é a mulher de sua vida? Qual o peso que essa mulher terá em seu futuro? "Calma, calma", ele respirava. "Tome o café da Joana e dê uma relaxada, ao menos. A Silvia vai perceber que você tá nervoso, porra! Isso não é bom, principalmente num segundo encontro!", ponderou com seus tresloucados botões.
Opa! Lá vai ela – hum, ele adorava aquela calça jeans! Ufa! Ainda bem que Demerval está mais relaxado! A sorte é que, no fundo de seu acolhedor bolso direito, acabou achando duas moedinhas de 1 real, suficientes para não só bancar um acalentador e momentâneo café expresso, como também para iniciar bem esse segundo encontro.
E isso foi o suficiente para Demerval concluir, satisfeito: “Valeu, bolso! Te devo uma, camarada!”.
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